terça-feira, 27 de maio de 2014

Apresentações..

Lembro-me do dia em que te conheci. Lembro-me como se fosse ontem e na verdade já lá vai tanto tempo...
Era uma manhã gelada de Fevereiro. Lembro-me que chovia torrencialmente e eu estava sentada debaixo dum dos toldos do recreio da escola.
Lembro-me de receber uma mensagem dele "logo à tarde vem cá a casa. Tenho uma notícia boa e uma má para te dar pessoalmente".
Lembro-me do bloco de gelo que me caiu no estômago, um iceberg de medo, preocupação, ansiedade.
Não era altura dele estar cá. Não era hora de mandar mensagens. Só devia vir nas férias de Páscoa.
Lembro-me de sair naquela tarde, chuva que caía sem parar e de sentir aquele medo que só as adolescentes sentem, porque acham que tudo de bom e de mau que há para dizer é sobre elas.
Lembro-me de tocar à campaínha.
Lembro-me dele abrir a porta. Contigo nos braços. Embrulhada num cobertor branco e fofo. Cabelo loiro a espreitar. Um anjo no meio daqueles braços. Aqueles braços que me apertavam com força e me atiravam ao ar e me punham no topo dos armários. Aqueles que se tornavam tão delicados e cuidadosos quando te pegavam ao colo. Lá estavas tu, envolta em branco, como um anjo, naquele colo que era teu, só teu.
"Nasceu... A mãe está muito mal...". Tristeza e alegria, dor e esperança, mágoa e amor, tudo ao mesmo tempo em tão poucas palavras.
Espreitei bem para ti, decorei cada bocadinho. Os olhos azuis, muito sérios e abertos para quem tinha tão pouco tempo de vida, a boca em coração cor de rosa, as pestanas loiras, quase brancas, o nariz pequenino. As mãozinhas tão perfeitas e tão pequenas e tão brancas que pareciam duma boneca de porcelana.
Pedi para pegar em ti. A medo, tão a medo. Achava-me tão sem jeito.
Encaixaste-te na curva dos meus braços, no calor do meu peito. Encostaste a bochecha ao meu coração e suspiraste. Como quem chega a casa, como quem está em casa.
"Minha pequenina, minha menina". Ainda nem sabia o teu nome e já te sabia minha, para sempre minha, tão minha como se parte de mim fosses.
"Beatriz" disse ele... "Beatriz"... Beatriz... Minha Beatriz, nossa Beatriz...
Foste minha no segundo que te vi. És minha até hoje.
Soube que te conheci num outro tempo, num outro plano.
Que quando me seguravas o dedo com a tua mão, seguravas a minha vida.
Que quando me olhavas nos olhos, sempre que te dava o leite, me vias a alma.
Chamaram-lhe "união feita nas estrelas". Destino. Caminho traçado.
Foste feita para ser minha. Para seres nossa. O nosso mais eterno laço.
Eu chamo-lhe amor. O meu primeiro grande amor. Amor à primeira vista. Amor maior que a vida. Amor maior que o que sinto por mim mesmo.
Um amor tão forte, tão feroz, tão grande que até me assusta.
E quando falas dele, quando te lembras, quando recordas, quando não deixas esquecer, sei que serás sempre aquele laço, forte, imutável que me une ao que de melhor fui, que me lembra do que posso ser.
Lembro-me desse dia. De rolar o teu nome na boca. Das lágrimas me caírem sem eu saber porquê. E de saber que te ia amar mais que tudo, mais que a vida, mais que o tempo.
Minha pequenina. Minha menina. Minha Beatriz. Nossa Beatriz...

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