Hoje reparei que o meu trabalho actual é ver passar-me pelas mãos centenas de amostras por dia.
Centenas de amostras que por trás têm outras tantas pessoas.
Pessoas reais, com vidas reais, problemas reais, doenças reais. Não apenas tubos de tampas coloridas.
E, sempre que pego numa requisição, olho para ela. Não só para confirmar nome e data de nascimento para fins práticos. Mas para ver quem elas são.. Ou aquilo que o papel me diz delas.
E às vezes, o meu coração aperta um bocadinho... Estão ali na minha frente crianças, bebés, grávidas com doenças graves. Muito graves mesmo...
Mas logo de seguida vem outra requisição, outro papel, outra amostra, outra vida... E esquece-se a anterior... Uma ou outra ficam, mas a maioria desvanece-se na memória e no ritmo de trabalho...
E eu concluo... A vida é mesmo isto... Uns vêm, outros vão, poucos ficam, muitos se esquecem.
Por segundos, a minha vida cruzou a de todas aquelas pessoas, são as minhas mãos que lhes vão permitir ter boas ou más notícias, celebrar ou despedir-se de quem amam, rir ou chorar, ou apenas saber que a vida delas continua igual, que está tudo bem, mais ou menos, assim-assim. Durante um breve momento coexistimos num espaço cósmico qualquer. A vida delas deu-me trabalho ou despertou-me interesse, a minha deu-lhes as respostas que procuram ou dúvidas que ainda não sabiam ter...
E nunca nos vamos cruzar. Nunca vamos saber quem somos. Ou então cruzamo-nos num corredor, numa rua qualquer e seguimos sempre. Sem saber que atrás daquele rosto está alguém que de alguma forma nos marcou...
Sim, é um lado (não sei se bom ou se mau) da minha profissão, mas às vezes acho que a vida é mesmo assim... Caminhos cruzados e seguidos e nada mais...
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