domingo, 1 de março de 2015

Carta à Minha Sobrinha Impossível

Liguei-vos hoje.
É fim-de-semana de estarem todos juntos, por isso, aproveitei. Gosto sempre da confusão, dos atropelos, das palavras gritadas, na ânsia de dizer tudo muito depressa.
A tua mãe diz que estás cada dia mais teimosa. A tua irmã mais velha diz que estás impossível. A tua irmã mais nova diz que até tens dias muito bons. O teu sobrinho mais novo diz que às vezes te quer deitar da janela. O teu sobrinho mais velho diz que não, que és muito querida. O teu pai sorri, conformado e diz que um dia darás dores de cabeça ao mundo.
Eu entendo-os a todos. És birrenta, teimosa, és cabeça dura. Só queres fazer o que te apetece. Quando te apetece. Como te apetece. Gritas porque queres ir de saia e sandálias em Fevereiro. Porque não queres casaco quando está frio. Porque queres o cabelo solto. Ou preso. Assim não, em trança. A outra trança.
És difícil, miúda. E o pior é ser difícil aos 6 anos.
Aos 6 anos não é boa ideia armares-te em personalidade forte. Eu já te disse isso. Guarda isso. Escolhe batalhas.
Impõe a tua vontade aos 14 quando todos fumarem e tu não quiseres ir na onda.
Aos 17 quando ele quiser "avançar" e tu não.
Aos 18 quando entrares no curso dos teus sonhos e virares noites a estudar.
Aos 30 quando subires na carreira.
Caraças. miúda, ouve-me que sei do que falo. Também sou assim, fui assim. Não vale a pena.
Mas é tramado contrariar aquilo que nós somos. A forma como nascemos.
Já nasceste assim: do contra, teimosa, a gritar com o mundo.
Tu, o bebé que nunca iria existir. Tu, o bebé que não iria nascer. Tu,o bebé que mostrou que a vida vence sempre a morte. Tu, o bebé que foi aconchego dos que te deviam aconchegar. Foste a paz num país em guerra, a água num país seco, o alimento num país cheio de fome.
Chegaste, chegando, como dizem os brasileiros. Tens sangue latino nessas veias. Uma novela venezuelana com pernas.
És gritos, barulho, confusão. És rosa choque, saltos altos, glitter.
Sabes o que queres e isso é, será, uma virtude. Sei que farás grandes coisas. Sei que irás longe.
Só fazeres o que queres tem a sua vantagem. Fazes com gosto, com amor. Quem te vê a conseguir o que queres depois de lutares muito por isso (oh coisinha insistente) vê o gosto que tens. Não é vencer por vencer, por medir forças com os adultos. Não, isso já não existe há muito tempo. É vencer porque é mesmo aquilo que queres.
É o gosto de sair de sapatilhas rosa choque quando devias ir de botas. E lá vais tu, aos saltinhos, a mirar as sapatilhas como se fossem a última coca-cola do deserto.
É o prazer com que comes cereais quando devias comer sopa.
Sei que vais longe. Sei que o teu nome vai ficar inscrito na História.
Que vais marcar, que vais vencer.
Sei que os teus saltos altos vão calcar caminhos importantes.
Mas por agora, vai com calma.
Amanhã ainda há tempo.
Ainda tens tantos amanhãs...
E o mundo não é feito de sapatilhas cor de rosa e cereais de chocolate...
O que é uma pena...

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