Lembro-me dos meus tempos de menina.
De começar Junho e a loja da minha madrinha se encher de manjericos. Dos grandes e dos pequenos.
E de gostar sempre dos pequeninos.
Lembro-me dos tirar do sol. E de os regar. Sempre no prato.
De lhes pôr a mão e depois cheirá-la, com ela em concha e de olhos fechados.
Não se põe o nariz num manjerico que ele murcha.
Lembro-me de achar aquele verde mais verde que tudo o resto.
Lembro-me de recortar cartolina e de pintar papel-cenário de castanho.
Lembro-me de fazer bolinhas de papel crepe e de ficar com os dedos todos verdes.
Lembro-me de as colar em forma de manjerico e do meu ser sempre o mais cheio e mais verde de todos.
Porque eu fazia sempre os trabalhos depressa e tinha sempre tempo de fazer muitas bolinhas.
E porque pintava o fundo de verde antes de as colar.
Lembro-me do orgulho que tinha do meu manjerico de bolinhas verdes e de o ver exposto na parede da sala em lugar de destaque. De assinar o meu nome com letra feia na parte de trás.
Lembro-me de ser sempre escolhida para fazer a Cascata.
De ficar com a roupa manchada da tinta do papel crepe colorido e dos guaches com que decorávamos o chão da cascata porque me deitava lá para dispôr melhor as peças.
Lembro-me de ter sempre ideias de coisas que podiamos usar para criar desníveis e de novas profissões que podiamos pôr.
Lembro-me da primeira vez que pusemos um bonequinho sentado com um computador na frente. Dois pedaços de cartão pequeninos, pintados como um ecrã e um teclado. Lembro-me de termos usado um palito para pintar as teclas e de nos acharmos muito inteligentes.
Lembro-me de encher o aquário das tartarugas de água e da D. Arminda e do Sr. José montarem um "rio" com canos de plástico cortados e um motorzinho que fazia a água correr. Batia palmas quando começava a correr. Batia sempre palmas. 4 anos, 4 vezes, 4 rios. Sempre palmas.
Lembro-me de ficar com as mãos vermelhas porque fazia alergia ao musgo e do cenário por trás pintado com casinhas e uma igreja.
Lembro-me de mudar de escola e sentir saudades da minha Cascata. Era minha, porque era sempre eu que ajudava a montar. Eu e o Bruno Alexandre, que se perdeu de mim nas voltas da vida. Nós e mais uns quantos que mal conhecíamos e a D. Arminda e o Sr. José. E a professora Lurdes vinha ver e dizia sempre que estava ainda mais bonita. No nosso último ano, disse que era a mais bonita de todas, a mais perfeita e original. E ficou com os olhos cheios de lágrimas. Disse que estávamos muito crescidos e muito habilidosos e havia um nó na voz dela. Era o nosso último ano e dela também.
Lembro-me de só percber como ela foi uma excelente professora muitos anos depois. E já não fui a tempo de lhe agradecer.
Lembro-me de ganhar um prémio do agrupamento e de ficarmos orgulhosos e corados.
De fazer versos para os manjericos de papel da escola e de recortar os papelinhos com os versos do meu avô para pôr nos manjericos verdadeiros que a minha madrinha vendia.
Lembro-me de noutra escola ajudar a fazer os arcos. Sempre desenhos cada vez mais complicados que o professor desenhava e eu copiava.
De fazer muitas flores de papel e enrolar fitas farfalhudas. De ser eu porque gostava, porque era meticulosa e picuínhas e porque o meu talento para as artes se findava por aí. Eram as melhores aulas de EVT do ano e eu adorava-as. Sozinha, com os meus papéis e as minhas fitas e um desenho meticuloso a cumprir.
Ele dava-me os parabéns e dizia que podia ser sempre assim nas aulas. Dava-me um 4 naquele período e eu ficava feliz e com as mãos tingidas de papel crepe.
Lembro-me de haver uma marcha no pavilhão Rosa Mota e de me sentir envergonhada mesmo atrás do arco. Não me lembro quando foi nem que idade tinha.
Lembro-me de estar anos sem papel crepe nem manjericos e do S.João perder a piada.
E de na faculdade fazer flores para o carro e sorrir. Porque eram de papel crepe e parecia que o início e o fim se cruzavam em cada uma delas.
Agora que penso nisso, lembro-me que fiz manjericos de papel e cascatas e arcos no infantário. Porque me portava bem e seguia as regras e instruções.
Este ano vou fazer um manjerico em feltro. Talvez o prenda ao peito com um alfinete.
Vou tentar comprar um verdadeiro e mantê-lo vivo muito tempo, como um que o meu avô teve e que durou tantos anos que já vergava com o peso.
Vou comprar uma folha de papel crepe e fazer bolinhas e flores até ficar de dedos pintados.
E vou-me sentir menina outra vez. E tudo aquilo que sentia no peito e que agora sei que se chama orgulho e amor-próprio. Este ano quero um manjerico e sentir isso tudo outra vez.
Mesmo sabendo que não vai ser exposto para toda a gente ver, nem vai cheirar como os da minha madrinha, nem vai ter quadras presas num palito de espetada.
Este ano vou ter um manjerico e ser menina outra vez.
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